
A maior tormenta para o ser humano está na encruzilhada da decisão. O momento da decisão, da escolha pela melhor das soluções, entre a miríade de possibilidades consideráveis, deixam qualquer indivíduo sob a responsabilidade e o peso da escolha que virem a tomar.
Esta agonia é tanto maior quando as decisões implicam mudanças na vida quotidiana dos cidadãos.
Decidir, em políticas públicas, exige que sejam levadas a cabo análises de custo/benefício, de viabilidade das políticas, da situação existente e do que se espera que venha a ser a situação futura, após a implementação de uma política.
Porém, há momentos na vida do decisor político que exigem soluções imediatas, porque, por exemplo, podem estar em causa garantias de bens essenciais, como a água, ou bens de consumo alimentícios.
Neste momento, o problema do deficiente abastecimento de água no concelho de Mértola, que está a ser garantido por auto-tanques, é exemplo deste tipo de políticas de recurso, que requerem uma resposta imediata, uma solução “just in time”.
Mas, o que devem os cidadãos perguntar-se é porque razão, após tão elevado investimento em condutas de água desde o Enxoé até Mértola, prevalecem as dificuldades de abastecimento. Esta é a questão que se impõe. E aqui a resposta é apenas uma.
Houve uma má decisão, a montante, que leva a que hoje se pague pelo erro de uma escolha mal calculada. Talvez, no momento da decisão, Paulo Neto tenha tido a sensação de estar numa encruzilhada, todavia, a solução deveria ter passado por uma análise exaustiva das diversas soluções. Enxoé nunca deveria ter sido a solução. É aqui que se encontra o cerne da questão e, onde podemos começar a desenrolar o novelo de más políticas.
A ligação da demagogia às Políticas Públicas faz-se no ponto em que os próprios decisores de uma má política para Mértola, se arrogam do direito de criticar medidas de excepção, tomadas em último recurso, quando os criadores dos problemas foram eles próprios.
Trata-se de um indecoroso aproveitamento político, baseado numa situação de crise de abastecimento de água. Mas mais indecoroso ainda é pretender fazer valer um disparate (refiro-me às sugestões apresentadas por Jorge Revez à Rádio) tentando abrilhantar-se perante o munícipe.
Frustrada tentativa de restyling político a de Revez. Os mertolenses não são nem tolos nem desinformados. Sabem bem quem criou esta situação.
O que importa agora é minorar os danos e não tirar deles aproveitamento político. Senão, quem tem muito a ganhar é mesmo quem herdou a factura do disparate do Enxoé, se a apresentar ao munícipe como prova de uma má política pública, decidida em favor de todos, menos dos habitantes do concelho de Mértola.
Rui Estêvão Alexandre
Mestrando em Gestão e Políticas Públicas
(Este artigo foi-nos enviado por Rui Estevão Alexandre com pedido de publicação)