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sábado, 18 de julho de 2009

Para ti!


Com os meus olhos de menina, registei cada bocadinho do teu carro, guardei tudo com amor na minha memória. Guardei as melodias que assobiavas tão bem, o fado triste que cantavas, triste mas que eu gostava.

O banco levemente castanho, corrido de porta a porta, onde te sentavas orgulhoso, tinha no meio um segredo, um braço largo que descia e se transformava no meu banquinho. Ali sentada, orgulhosa, registava cada bocadinho de ti, do teu carro, apaixonada pelo vento quente que trazia sempre um cheiro a eucalipto que me acalmava, pela tua voz sábia que me contava histórias de cada monte, cada vale, cada caminho.

A meio da noite, o telefone tocava, uma chamada. A casa iluminava-se, com esmero e dedicação tudo se transformava. Era uma chamada. Cheirava a café, a manhã.
- Avó, posso ir ??

À noite nunca podia, porque à noite, quando o táxi era chamado, a história dessa noite não seria para uma menina, hoje percebo.
Mas uma noite deixaste-me ir, fomos ao Álamo, era pertinho. Foi a primeira vez que vi no horizonte de uma noite escura, as primeiras sombras claras do nascer do dia. Na viagem de regresso trazíamos no banco de trás, uma senhora linda, com um lenço negro na cabeça e um sorriso. Quando não estávamos sozinhos, eu ficava em silêncio a ouvir-te.

Marcou-me o respeito, a perseverança, a tua luta. Os valores que te edificavam, tão altos, tão bonitos, tão verdadeiros, tão meus. Marcou-me a melodia que assobiavas. Marcou-me a terra que tão bem conhecias e da qual me inundaste, marcou-me a gente sofrida que ajudavas com o teu carro, as suas vidas, as suas histórias feitas minhas, para sempre.

A Vila.

Na tua voz, a Vila era o meu castelo, e eu a viajante de caminhos de terra e pó e sonhos. Nos muros caiados, no postigo entreaberto, na margem do Rio. Na rua empedrada e na igreja. No outro lado do Rio. Em cada laranjeira, cada rosmaninho, cada amendoeira. Estão as histórias que me contaste, está uma paz quente com cheiro de eucalipto, está a minha paixão pelo mundo que me ofereceste. A Vila bonita que guardo sempre do meu lado, para onde fujo, mesmo em pensamento, quando a vida de menina crescida me traz algum mau momento. A Vila que tem uma luz clara, única, de onde se vê mais longe, a Vila que ri e dança e abraça gente sábia, bonita, verdadeira.

O meu banquinho recolhia, as portas fechavam, e eu ficava a sonhar com o próximo dia, certa como tu, de que o dever estava cumprido. Como agora que te homenageio.

Dei o teu nome ao meu filho! Diogo! Para te dizer com um gesto, que guardo tudo, com amor, com gratidão!

Tenho tantas saudades tuas!

5 comentários:

  1. Olha!

    Os táxis no largo .... ali no arrabalde ....

    O Senhor Diogo e o Chico Rebolo .... junto aos seus carros de cromados reluzentes sempre impecáveis e prontos para mais um serviço ....

    Inês, obrigado por nos trazer e recordar estes momentos que fazem parte da nossa história.

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  2. Cara Inês;
    Estou-lhe muito grato por me transportar a tempos que recordo com saudade.

    Recordo especialmente as noites de calor, por alturas do S. João ou Santa Maria, nos “Montes do concelho”, em que, como ninguém tinha carro ou bicicleta (como eu gostaria de ter tido uma bicicleta nesses tempos!), o senhor Diogo ou o senhor Chico Rebolo, a troco de vinte e cinco tostões, cada um, nos transportava de baile em baile, noite dentro, até que o dia rompesse.

    Obrigado Inês, espero que compreenda a minha lamechice, mas a verdade é que você deixou-me comovido ao proporcionar-me recordações que já se haviam eclipsado da minha memória.

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  3. Para além da grande beleza que ressuma do seu magnífico post, Inês, a recordação de dois homens bons que tão bem conheci!

    Obrigado,pois!

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  4. É muito difícil chegar com serenidade ao fim da leitura.
    Porque a Inês tem a rara capacidade de ser autêntica e nos contar momentos tocantes com muita mestria.

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  5. Tivesse eu a certeza de que, ao partir, deixava cá uma neta que, com tanta autenticidade, mostrasse a saudade imensa que transparece deste seu testemunho e, sem sombra de dúvida, ir-me-ia embora, tranquilamente, com a certeza de ter cumprido um dos nossos principais deveres: o de saber ganhar o merecimento de tão intenso e desinteressado amor...

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