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sábado, 26 de junho de 2010

Uma maioria, um Governo e um Presidente?

De há muito em campanha eleitoral de modo não assumido, Cavaco Silva está no terreno, mas a mensagem que nos deixa é a do desalento e a do desespero.

Voltou agora a referir-se à situação insustentável do nosso país e às dificuldades de obtenção de financiamento.

O Presidente da República falava em Oeiras, num encontro com jovens empresários a quem terá dado uma

"O crédito vai faltar", sublinhou, valendo-se das afirmações feitas nesse sentido por banqueiros: "os homens da banca dizem que Portugal enfrenta dificuldades de crédito no exterior".

Foi o Eng José Sócrates o primeiro a reagir, de forma subtil, a estas declarações, durante o debate quinzenal na Assembleia da República:

"Muitas vezes sinto-me sozinho a puxar pelas energias do país", recusando-se a comentar as palavras do Presidente da República.

Também o doutor Mário Soares, à margem da homenagem que lhe está a ser prestada em Arcos de Valdevez, não quis comentar as posições do senhor Presidente da República, realçando, no entanto, que, apesar da "situação ser difícil", não sabe "se a melhor coisa é um presidente fazer apelos" do género dos que fez na sexta feira Cavaco Silva (clique aqui para ver a notícia).

A intervenção do Sr Presidente da República é um remake do seu discurso do dia 10 de Junho.

Quando se esperava uma palavra de esperança e de confiança por parte do mais alto magistrado da Nação, brinda ele os portugueses com o pessimismo, a desconfiança, o desespero e tudo isto como se o actual Presidente fosse de todo alheio à crise que nos assola! Como se a crise tivesse sido importada por nós! Como se a crise fosse apenas uma crise da economia portuguesa; como se tudo não passasse de uma questão de endividamento! E, qual mestre escola, vem-nos lembrar agora de que ele bem "avisara"!

Mas, pode perguntar-se, o que fez o Presidente da República para evitar a crise? De que nos valeram os seus propalados dotes de economista? De que serviu a sua tão apregoada "cooperação estratégica"? Uma mão vazia e outra cheia de nada! É isto o que o PR tem para nos oferecer.

Alguém se lembra, desde o dealbar da crise em 2008, de quantas vezes fez reunir o Conselho de Estado? Quantas vezes reuniu com os partidos políticos, com os empresários, com os sindicatos?

Que fez o Presidente da República para mobilizar os portugueses?

Quando se dirigiu ao país fê-lo sempre com o passo trocado: na "questão" do estatuto autonómico dos Açores (que bem poderia ter evitado se tivesse logo pedido, de uma assentada, a intervenção do Tribunal Constitucional); na estória das escutas em Belém, que ainda está por explicar; na promulgação da lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao tentar convencer os portugueses das razões por que não usara do seu veto político.

Em contraponto, um gestor de "silêncios" quando era imperioso que falasse.

Acontece que os últimos pronunciamentos do Sr Presidente da República coincidem, a bem dizer, com a divulgação de uma sondagem da Marktest que atribui ao PSD a maioria absoluta de intenções de votos, o dobro das intenções de votos no PS (aqui) .

É bem certo que as sondagens valem o que valem. O Primeiro Ministro e o Governo estão desde há muito tempo debaixo do fogo cerrado dos partidos da oposição, à esquerda e à direita, quase sempre pelos pretextos menores: os inquéritos de toda a ordem, parlamentares e extra-parlamentares, que outra coisa não visam senão desgastar o Governo e o Primeiro Ministro enquanto a direita se "prepara" para governar.

E sabe-se o que a direita prepara: o desmantelamento do Estado Social, a revisão da Constituição, privatizações, flexibilização das leis laborais, em suma, a receita neoliberal dos tais economistas e banqueiros de que Cavaco tanto gosta.

Neste contexto, talvez valha a pena ouvir as palavras que Manuel Alegre proferiu ontem em Setúbal, durante um jantar com apoiantes seus:

"O Presidente da República não pode nunca dizer que Portugal vive numa situação insustentável". "O Presidente diz que que preveniu, avisou, mas ao Presidente não cabem apenas palavras de depressão e desmobilização, mas sim de confiança".

Para Alegre, há duas alternativas: mais austeridade, desemprego, desregulação, liberalização dos despedimentos e precariedade; ou uma reforma profunda, com mais solidariedade e responsabilidade social do Estado". E aquilo a que se assiste hoje "é uma ofensiva da direita contra o estado social. É possível consolidar as finanças públicas sem esquecer o principal défice que é o social e o da cultura".

Alegre relembrou também o velho sonho da Direita: uma maioria, um Governo e um Presidente
(o áudio completo da intervenção, aqui).

Ora, independentemente das sensibilidades de cada um de nós, haverá que reconhecer que o que teríamos pela frente, com a reeleição de Cavaco Silva, mais não seria que a concretização daquele velho sonho.

Mas só será assim se o quisermos e desejarmos. O destino está nas nossas mãos. Saibamos distinguir o essencial do acessório: esquecer questões pessoais e paroquianas e centrar a nossa atenção no nosso futuro imediato. Em nome dos valores do socialismo democrático e do pluralismo.














2 comentários:

  1. Concordo com que acima é dito. É pena não termos outro lote de candidatos.O Manuel Alegre não entusiasma , não mobiliza. O ser ar crispado, a sua imagem não ajudam. Apenas o seu passado politico diz algo à esquerda.A recondução dos mesmos mandatários quase todos anti.Ps não augura uma campanha mobilizadora. Se o esprito de campanha é o mesmo a esquerda vai ter nova derrota e é pena, pois pela primeira vez existia a possibilidade de um Presidente da República não ganhar numa recandidatura.
    Por mim não terei grandes alternativas e terei que engolir um sapo, não sei é se ele passará da garganta, tudo dependerá do mandatário local.Espero para ver

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  2. Caro bresnev

    Francamente, mais crispado do que Cavaco é mesmo difícil arranjar alguém!

    E, quanto à "imagem" de Alegre, à falta de outras especificações, parece-me, caro bresnev, que é um conceito sem definição. Tal como a falta de "perfil", de que alguns falam.

    A "imagem não ajuda" porque... (o resto ficou por dizer)

    "Apenas o seu passado político diz algo à esquerda". Isto não será demasiado redutor, caro bresnev?

    Quanto aos mandatários, há mandatários e mandatários. Não são estes que vão a votos. Duvido que, na hora de votar, o eleitor esteja a pensar nos mandatários e não nos candidatos. Não se deixa de gostar de uma mulher lá porque o seu pai ou irmão não nos agrada!

    Numa coisa estou inteiramente de acordo consigo: se a esquerda não se unir, na hora da verdade, Cavaco ganhará!

    Vejo quão difícil é ultrapassar questões pessoais e locais! É o que posso deduzir do último período do seu comentário. Lembro apenas que a eleição de Janeiro é uma eleição nacional e a única que é polarizado numa só pessoa.

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