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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O Aluvião


 







Durante os primeiros dias do ano somos inundados por mensagens cheias de boas intenções. Desejos de felicidade, paz, saúde, prosperidade, etc... Parece-me um bom hábito, ainda que tenha uma forte componente protocolar. Acostumado a ouvir coisas menos agradáveis, acho positivo que esta onda atravesse o planeta por algumas semanas. No entanto, não sei se as bombas e o zumbido dos obuses da guerra russa na Ucrânia permitirão sentir ou compreender o conteúdo das belas palavras.

Enquanto comíamos, comprávamos, entregávamos presentes, enchíamos as cidades de luzes e nos cumprimentávamos, um país era bombardeado de forma impiedosa e implacável por outro muito maior e mais poderoso. Enquanto celebrávamos a ceia de Natal, famílias inteiras eram atingidas pela morte, pelo frio e pela fome. Enquanto um pai disfarçado de Pai Natal distribuía os presentes às crianças ricas, outras crianças eram apresentadas ao terror e à miséria, se não se deixarem levar pela morte que a guerra semeia.

Que mundo estamos a construir? Que mundo deixaremos aos nossos filhos e às nossas filhas? Como vamos convencê-los de que o diálogo e a negociação são as melhores formas de alcançar a paz se os mais poderosos resolvem os problemas com bombas?

Como lhes vamos explicar que todos os seres humanos, apenas pelo facto de serem humanos, têm direito à sua dignidade, se aqueles que atingiram o nível mais alto da dignidade humana matam inocentes por capricho?

Que tipo de escolas temos? Como é possível que delas saiam pessoas capazes de declarar e alimentar guerras, de matar e mandar matar, e olhar para a morte e contemplá-la com desdém? Penso que as línguas, a matemática e a história não serão suficientes. Temos de falar seriamente sobre solidariedade, compaixão, justiça, dignidade e liberdade. Temos de falar sobre política, sobre ética e sobre novas formas de organizar as comunidades e o espaço público. Para mim, é claro que o papel das escolas de hoje deve ser formar em primeiro lugar boas pessoas. Porque uma boa pessoa será sempre um bom aluno.

Agora que celebramos a entrada do novo ano (ao som dos bombardeamentos) vamos pensar um pouco mais sobre o inferno da guerra. Desta e de qualquer outra. Pensemos que destrói não um país, mas o mundo inteiro. Lutemos por um mundo diferente.

Desejo a todos e as todas um Bom Ano.

Júlio Silva

domingo, 8 de janeiro de 2023

Entorse








A nossa Democracia fez uma entorse. O peso dos anos, a falta de treino e o andar descuidado só podiam ter este desfecho. Ela precisa de ter muito cuidado. Andam por aí uns jovens, de velhas famílias mas boa aparência, que treinam regularmente e com afinco.

Diz-se que esses jovens têm a singular capacidade de correr mais rápido nos momentos certos e de prometer exatamente o que todos desejam ou comentam em surdina.

Nos últimos anos, principalmente onde as multidões são menos esclarecidas, ganham corridas atrás de corridas, o que me deixa preocupado.
Por tudo isto, cara Democracia, desejo ardentemente que voltes a ser o que eras, que te aproximes dos que te adoraram sempre, que não te deixes enganar por quem engana em teu nome, que voltes a treinar com aprumo e dedicação e que penses numa coisa muito séria: tu és o povo e o povo és tu. 

Julio Silva

domingo, 11 de dezembro de 2022

ADPM - 42 Anos nunca serão 42 dias



A Associação de Defesa do Património de Mértola celebra no próximo dia 16 de dezembro quarenta e dois anos de atividade. Esta instituição, pensada e criada com o objetivo de contribuir ativamente para o desenvolvimento integrado do concelho de Mértola, sustentado na conservação, dinamização e valorização dos recursos endógenos, foi sem dúvida uma das principais responsáveis por muitas coisas boas que existem no nosso concelho.

Aquela casa fez de tudo um pouco quando pouco havia. Dinamizou formação como forma de promover o empreendedorismo e aumentar as competências dos quadros de algumas organizações do concelho. Estabeleceu parcerias e construiu pontes como forma de potenciar o envolvimento de todos nas suas ideias e projetos. Criou uma equipa multidisciplinar que ao longo dos anos acumulou um capital de conhecimento e contactos invejável. E deu a Mértola a visibilidade que precisava numa área que é hoje vital para a nossa terra – o ambiente.

Nos últimos anos, e como prova da sua resistência face à instabilidade ou inexistência dos financiamentos locais ou comunitários, apostou numa estratégia de internacionalização com vários projetos em países em vias de desenvolvimento como Cabo Verde e Moçambique, fazendo prova que o conhecimento e a experiência são as chaves para o desenvolvimento das zonas interiores, isoladas ou mais desfavorecidas.

É lamentável que toda esta experiência e conhecimento do território não sejam aproveitados em prol de uma terra tão isolada e dependente de duodécimos. É necessário pensar que não há nada de mais valioso que o conhecimento e que não há nada de mais trágico do que a falta dele.

Parabéns a toda a equipa da ADPM.

42 Anos nunca serão 42 dias.

Fotos: Retiradas do site da ADPM.

Texto de Júlio Silva publicado AQU

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Santana está na moda





Ao longe avista-se um conjunto de casas que recorta de forma solene o verde da paisagem. Fica-se imediatamente com a sensação que sempre esteve ali, que pertence naturalmente àquele lugar. E que a torre da sua igreja nos brada sem eco.

Quando se entra na aldeia, o branco enche-nos os olhos. As barras amarelas, cor-de-rosa ou cinzentas, fazem pandã sem receio. Tudo ali parece fazer sentido.

No largo da igreja, sem grande esforço, entramos numa longa-metragem revivalista a preto e branco, com banda sonora do Ennio Morricone. E com a música chega a calma. Uma calma que percorre as ruas irrepreensivelmente limpas. Que une as pessoas como pedras da calçada. E que habita, com orgulho, todos os rostos. Os jovens, os menos jovens e os entradotes.

No seu entorno, e caminhando, é possível ter acesso a paisagens de cortar a respiração e a um plano de água com quilómetros de extensão. Existindo ainda a possibilidade de observar formações geológicas de rara beleza.

Mas o que torna também esta aldeia especial são as pessoas. Os seus habitantes. Nomeadamente a sua faculdade para entender que só através da colaboração, da tolerância, da responsabilidade e do sentido de pertença é que é possível melhorar. E melhorar da forma mais nobre que existe: coletivamente.

Ela ali está. Santana de Cambas. No meio do nada. No epicentro da calma. Mas no centro de tudo o que interessa.

Texto e fotografias de Júlio Silva

Publicado AQUI.